As Cinco Peles
corpo, território e mundo
A teoria das Cinco Peles, de Friedensreich Hundertwasser, propõe uma compreensão ampliada do ser humano como um corpo em camadas sucessivas de relação com o mundo: epiderme, vestuário, casa, identidade social e meio global. Na Bienal Black, essa teoria é deslocada de sua origem eurocêntrica e reinterpretada a partir de perspectivas decoloniais, afro-diaspóricas e indígenas, em diálogo com o pensamento de Nêgo Bispo, para quem o mundo não se organiza por separações rígidas, mas por continuidade, convivência e circularidade.
A primeira pele — Textura (Epiderme) — é compreendida como fronteira viva entre o corpo e o mundo, mas também como arquivo histórico onde o colonialismo inscreveu violências, classificações e hierarquias raciais. A pele negra e indígena foi transformada em marcador político, alvo de controle, apagamento e exploração. Ao mesmo tempo, é na epiderme que residem saberes ancestrais, memórias corporais e tecnologias de resistência. Textura, porosidade, cicatriz, marca, cor e toque tornam-se campos de investigação artística, revelando a pele como superfície sensível, espiritual e política — aquilo que protege, revela e cria.
A segunda pele — Corpo (Vestuário) — desloca o vestir do campo da moda para o da performance identitária e da tecnologia ancestral. Para além da função utilitária, roupas, adornos, tecidos e marcas corporais constituem linguagens de afirmação, pertencimento e insurgência. Nêgo Bispo entenderia como prática de continuidade cultural: o corpo veste território, memória e ancestralidade. Da indumentária afro-brasileira ao streetwear periférico, dos trançados indígenas aos figurinos rituais e performáticos, esta pele investiga como o corpo se torna manifesto vivo contra os regimes coloniais de normatização.
A terceira pele — Espaço (Casa) — aborda o habitar como gesto político. Casa não é apenas abrigo físico, mas território simbólico, cosmológico e afetivo. No contexto afro-diaspórico e indígena, a casa se expande para o terreiro, o quilombo, a favela, a beira do rio, o mangue, a rua. Ao mesmo tempo em que é lugar de cuidado e pertencimento, a casa também carrega marcas de deslocamentos forçados, migrações, despejos e violências estruturais. Aqui, a Bienal compreende o espaço como corpo ampliado, alinhando-se à noção de que território não se possui: território se vive, se cuida e se compartilha.
A quarta pele — Rede (Identidade Social) — rompe com a ideia de identidade como algo fixo ou individual. Identidade, sob uma perspectiva decolonial, é processo relacional, tecido por redes de afeto, solidariedade, oralidade e luta. Famílias ampliadas, comunidades tradicionais, diásporas, coletivos culturais, movimentos sociais e redes digitais constituem ecologias relacionais que sustentam a existência. Esta pele investiga como artistas materializam essas redes por meio de gestos, imagens, sons, tecnologias e rituais, compreendendo a coletividade como forma de resistência e criação de futuro.
Por fim, a quinta pele — Comunidade (Meio Global) — expande o olhar para o planeta como corpo vivo e interdependente. Em consonância com o pensamento de Nêgo Bispo, que recusa a separação entre humanidade e natureza, esta pele propõe uma visão pluriversal, onde humanos, águas, plantas, animais, espíritos, cidades e ancestralidades coexistem. No contexto de Recife — cidade de águas, manguezais e travessias atlânticas — a Bienal articula ecologias negras, cosmologias afro-atlânticas e saberes indígenas aos debates contemporâneos sobre justiça climática, sustentabilidade e direitos da Terra.
Assim, ao decolonizar a teoria das Cinco Peles, a Bienal Black propõe uma curadoria que não separa corpo, território e mundo, mas os entende como camadas contínuas de existência, memória e invenção coletiva.
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